Os livros de negócios que valem o seu tempo em 2025 (e o que o Financial Times viu neles)
Em 2025, o selo “recomendado pelo Financial Times” deixou de ser apenas uma etiqueta de prestígio para virar uma ferramenta de filtragem brutal. Num mercado editorial brasileiro que cresceu mais de 6%...
Em 2025, o selo “recomendado pelo Financial Times” deixou de ser apenas uma etiqueta de prestígio para virar uma ferramenta de filtragem brutal. Num mercado editorial brasileiro que cresceu mais de 6% em volume no início do ano — mas viu o número de títulos disponíveis (ISBNs) cair drasticamente — a mensagem é clara: estamos lendo mais cópias das mesmas poucas obras.

Para o executivo soterrado por relatórios de trimestrais e notificações de Slack, a curadoria do FT, cruzada com os dados de vendas, funciona como um separador de águas. Este boletim analisa não apenas os vencedores, mas *por que* certas obras migraram da estante da livraria para a pauta das reuniões de conselho.
O prêmio de £30.000 que pauta o mercado
O *Financial Times Business Book of the Year Award* não é sobre literatura; é sobre antecipação de cenário. Criado em 2005 e agora operado em parceria com a gestora Schroders, o prêmio paga £30.000 ao vencedor e £10.000 aos finalistas. Mas o valor real está no efeito cascata: um livro listado aqui tende a virar referência obrigatória em consultorias e bancos de investimento meses depois.
A curadoria do prêmio tem acertado o "timing" de temas áridos que de repente se tornam críticos. Não é coincidência que *Chip War* tenha vencido pouco antes de semicondutores virarem questão de segurança nacional, ou que *Invisible Women* tenha levado a taça antes de o debate sobre viés em IA explodir.
Quando a leitura vira estratégia de defesa
O histórico recente dos vencedores revela um padrão: o FT parou de premiar "autoajuda corporativa" e focou em riscos sistêmicos.
**O alerta da infraestrutura invisível** Livros como *No Filter* (sobre o Instagram) e *Chip War* (sobre semicondutores) forçaram executivos a encarar redes sociais e chips não como produtos de consumo, mas como infraestrutura crítica. Para um diretor de supply chain de uma montadora no ABC paulista, ler *Chip War* deixou de ser hobby e virou lição de casa para explicar paradas de produção ao conselho.
**A nova camada de risco cibernético** A vitória de *This Is How They Tell Me the World Ends* em 2021 antecipou o pesadelo atual de ransomware em hospitais e concessionárias de energia. O livro tirou a cibersegurança do departamento de TI e a colocou na mesa do CEO como risco de continuidade de negócio.
**A obsessão pela IA e a "supremacia"** O destaque recente para *Supremacy: AI, ChatGPT, and the Race That Will Change the World* consolida a visão de que a Inteligência Artificial generativa é uma corrida armamentista econômica. Não se trata mais de "como usar o ChatGPT", mas de entender por que trilhões de dólares estão sendo concretados em data centers e como isso afeta o valuation das Big Techs.
As apostas econômicas de Martin Wolf para 2025
Martin Wolf, o comentarista-chefe de economia do FT, funciona como um oráculo pragmático. Sua lista de meados de 2025 destaca três obras que formam um triângulo de preocupações para qualquer gestor brasileiro: energia, protecionismo e incerteza.
O cenário da energia superbarata (Stellar)
Em *Stellar*, James Arbib e Tony Seba defendem uma tese ousada: a de que estamos à beira de uma era de superabundância energética. Eles argumentam que a queda nos custos de solar, eólica e baterias, somada à IA, vai derrubar o custo marginal de produção.
Para o Brasil, que discute transição energética entre hidrogênio verde e pré-sal, essa leitura é provocativa. Se a curva de custo de *Stellar* estiver certa, muitos projetos de infraestrutura de longo prazo baseados em preços antigos de energia podem virar ativos encalhados antes de operarem.
O comércio global travado (Democracy for a Sustainable World)
James Bacchus, ex-chefe do órgão de apelação da OMC, toca na ferida aberta do agronegócio e da indústria exportadora. Com o sistema de resolução de disputas da OMC paralisado, o mundo voltou à lei do mais forte nas tarifas.
O livro é um manual para entender o risco de barreiras não-tarifárias (como as ambientais) que afetam diretamente exportadores brasileiros. Sem um juiz global, a diplomacia comercial e o compliance ESG viram as únicas defesas contra o protecionismo disfarçado de preocupação climática.
Decidindo no escuro (Uncertainty and Enterprise)
Amar Bhidé traz talvez a leitura mais necessária para o ambiente de negócios brasileiro em *Uncertainty and Enterprise*. Ele separa o "risco" (calculável em planilha) da "incerteza" (o que você nem sabe que não sabe).
Para fundos e CFOs que viram a Selic e a inflação desafiarem as projeções dos últimos dois anos, a abordagem de Bhidé ressoa. Ele argumenta que o empreendedorismo real acontece justamente onde o Excel falha. É a leitura ideal para quem precisa justificar decisões de investimento em um cenário onde a reforma tributária ou a política fiscal mudam as regras do jogo no meio da partida.
O mercado brasileiro: concentração e "efeito manada"
Enquanto o FT dita a vanguarda intelectual, o varejo de livros no Brasil mostra um comportamento de "vencedor leva tudo". Dados do Painel do Varejo de Livros (Nielsen/SNEL) do início de 2025 mostram um mercado que faturou R$ 531 milhões em dois meses — alta de 6% sobre o ano anterior.
O dado mais revelador, porém, é a queda de 13,5% no número de ISBNs (títulos diferentes) comercializados. Isso significa que estamos comprando mais, mas variando menos. O "efeito BookTok" e as listas de recomendação de bilionários como Bill Gates criam funis poderosos.
O que os C-levels brasileiros estão lendo
Nas mesas dos executivos locais, a lista do FT compete com clássicos resilientes. Pesquisas recentes indicam que títulos como *A Psicologia Financeira*, de Morgan Housel, e *O Investidor Inteligente* continuam firmes. A entrada de categorias de negócios no Prêmio Jabuti também sinaliza um apetite por temas locais, como *Consumo Verde* e *Neuromanagement*.
A dinâmica é clara: o "básico bem feito" (Housel, Graham) garante a fundação de finanças pessoais e comportamento, enquanto as recomendações do FT (Wolf, geopolítica, IA) entram para preencher a lacuna estratégica de alto nível.
Como montar seu portfólio de leitura (sem perder o sono)
Tentar ler tudo é a receita perfeita para não ler nada. Uma abordagem mais racional, inspirada na alocação de ativos, sugere dividir o tempo de leitura — algo entre 150 a 200 horas anuais para um líder disciplinado — em três carteiras:
1. A Carteira de Estrutura (Geopolítica e Macro)
Onde entram as indicações de Martin Wolf. O objetivo aqui não é virar economista, mas entender as placas tectônicas. * **Meta:** Ler um livro denso por semestre (ex: *Democracy for a Sustainable World*) para entender tarifas, guerras comerciais e regulação. * **Teste prático:** Você consegue explicar como uma mudança na OMC afeta o preço do seu insumo importado?
2. A Carteira de Tecnologia (O "Hype" com filtro)
Aqui entram os vencedores do FT sobre IA e chips. O segredo é ler com ceticismo. * **Meta:** Fugir dos tutoriais e focar na estratégia. *Supremacy* ou *Chip War* valem mais do que dez e-books sobre "como fazer prompts". * **Aplicação:** Usar a leitura para questionar o orçamento de TI. Aquele investimento em IA generativa é estrutural ou é espuma?
3. A Carteira Comportamental (O Fator Humano)
Livros de Amar Bhidé ou clássicos de psicologia financeira. * **Meta:** Vacina cognitiva. No Brasil, onde o humor do mercado oscila violentamente, entender a psicologia do dinheiro evita decisões afobadas de alavancagem ou pânico.
Um diretor de operações de uma rede hospitalar do Nordeste resumiu bem a utilidade dessa dieta mista: "Ler sobre a história do SUS me dá contexto, mas ler sobre IA e custos de energia em livros globais me ajudou a vetar uma expansão física cara e apostar em telemedicina antes do concorrente. O livro não decide por você, mas melhora a qualidade da sua dúvida."
Fontes
Melhores livros de economia de 2025 até agora por FT - 19/06 ...
Os 10 Melhores Livros de Negócios de Todos os Tempos - Kinsta®
12 livros de educação financeira:começar 2025 pronto para investir