O filtro tropical: o que do hype da Gartner realmente sobrevive no Brasil até 2026
Todo fim de ano, o mercado de tecnologia vive seu ritual sagrado: a divulgação das tendências estratégicas do Gartner. Para 2025 e 2026, a consultoria dobrou a aposta em plataformas de supercomputação...
Todo fim de ano, o mercado de tecnologia vive seu ritual sagrado: a divulgação das tendências estratégicas do Gartner. Para 2025 e 2026, a consultoria dobrou a aposta em plataformas de supercomputação com IA, agentes autônomos ("Agentic AI") e segurança contra desinformação. A leitura global é fascinante, mas para o CIO ou CEO brasileiro, ela vem acompanhada de uma pergunta cética: quanto disso para em pé na nossa infraestrutura, com o nosso orçamento e sob a nossa regulação?

A resposta curta é: o Brasil vai comprar a tecnologia, mas vai usá-la de um jeito diferente.
Não é falta de dinheiro. Dados recentes da ABES e IDC mostram que o país investiu US$ 58,6 bilhões em TI em 2024 — um salto de quase 14% que nos coloca na liderança isolada da América Latina e no top 10 global. Se somarmos telecomunicações (TIC), o cheque sobe para US$ 90 bilhões. O dinheiro existe. A questão é que, por aqui, a inovação não segue apenas a lógica da capacidade de processamento; ela segue a lógica do gargalo. O que resolve uma dor operacional imediata ganha tração; o que é "nice to have" fica no PowerPoint.
Agentes de IA: o fim do "desculpe, não entendi"
A tendência mais palpável para os próximos dois anos é a ascensão da *Agentic AI*. O Gartner projeta que, até 2028, 15% das decisões de trabalho diárias serão tomadas autonomamente por agentes, saindo do zero absoluto hoje. Esqueça o chatbot que te manda reiniciar o modem. Estamos falando de agentes que planejam, orquestram e executam tarefas sem babá humana.
No Brasil, isso ataca uma ferida exposta: a ineficiência operacional do backoffice e do atendimento.
O estagiário infatigável do mercado financeiro
Bancos e fintechs devem ser os primeiros a largar na frente. Com a pressão da ANBIMA e do Banco Central por eficiência e gestão de riscos, agentes de IA deixam de ser luxo. Imagine um sistema que não apenas alerta sobre uma transação suspeita, mas que autonomamente congela a conta, envia a notificação regulatória para o Coaf, redige o e-mail para o cliente pedindo documentos extras e atualiza o score de risco — tudo em segundos.
O executivo de tecnologia de um grande banco digital resume a mudança de mentalidade: "Antes a gente queria IA para falar com o cliente. Agora a gente quer IA para limpar a sujeira processual que ninguém quer fazer."
Onde o varejo ganha margem
Para o varejo e serviços de alto volume, a conta é simples: custo de servir. Um agente autônomo capaz de negociar dívidas de baixo valor, reemitir boletos e coordenar a logística reversa de uma troca sem intervenção humana impacta diretamente a última linha do balanço. Não é sobre encantar o cliente com conversa fiada, é sobre resolver a demanda em D+0.
Supercomputação: posse é vaidade, acesso é sanidade
O Gartner aponta para 2026 o surgimento de plataformas de supercomputação com IA, combinando CPUs, GPUs e até computação neuromórfica. Mas sejamos realistas: tirando três ou quatro gigantes nacionais e as subsidiárias de big techs, quase ninguém no Brasil vai montar um data center com essa arquitetura própria.
A tendência por aqui vira outra coisa: **Supercomputação as a Service**.
Agro e Energia puxando a fila
Onde essa capacidade bruta de processamento faz diferença no PIB brasileiro? Na simulação. No agronegócio, rodar modelos climáticos cruzados com dados de solo e logística exige poder de fogo. No setor elétrico, prever cargas em cenários de eventos extremos — cada vez mais comuns — demanda arquiteturas híbridas que a nuvem pública oferece.
O modelo brasileiro será pragmático: nuvem híbrida e multicloud. A ABES reforça que o mercado local já entendeu que não dá para depender de um único fornecedor. O CIO brasileiro vai manter os dados sensíveis (protegidos pela LGPD e compliance bancário) em casa ou em data centers locais com baixa latência, e "alugar" os supercomputadores da AWS, Azure ou Google apenas para o treino pesado dos modelos. O custo de ter o hardware depreciando no balanço não compensa.
Confiança digital e a "IA Insidiosa"
Talvez o ponto mais crítico do relatório para o contexto nacional seja o que o Gartner chama de defesa contra a "IA Insidiosa" — o uso da tecnologia para manipular reputação e mercado. As tendências de **Segurança contra Desinformação** e **Governança de IA** deixam de ser pauta técnica e viram pauta de conselho.
A blindagem da marca
Para 2025 e 2026, a previsão é que metade das empresas adote soluções contra desinformação. No Brasil, terra fértil para golpes de WhatsApp e deepfakes, isso é urgente. Varejistas já enfrentam "promoções fantasmas" criadas por IA para roubar dados de clientes. Bancos lidam com vídeos falsos de CEOs anunciando planos de investimento.
A ferramenta de TI precisa virar ferramenta de Relações Públicas e Jurídico. Monitorar a integridade da marca e rastrear a origem de um boato gerado por IA será tão rotineiro quanto passar antivírus.
Criptografia pós-quântica: o seguro do PIX
Pode parecer ficção científica, mas a criptografia pós-quântica entra no radar por um motivo muito tupiniquim: o PIX e o Open Finance. Com toda a infraestrutura financeira do país exposta em APIs e transações instantâneas, o risco de que computadores quânticos quebrem a criptografia atual na próxima década obriga o setor a se mexer agora.
Não é algo para implementar amanhã de manhã, mas bancos e o setor público já começam a fazer o inventário de onde estão seus dados críticos. Quem deixar para 2029 pode descobrir que seus segredos industriais e chaves de segurança viraram domínio público.
O veredito para o executivo
Olhando para o horizonte de 2026 desenhado pelo Gartner, o filtro brasileiro é claro.
O que deve **pegar rápido**: 1. **Agentes de IA** para automatizar processos chatos e burocráticos (backoffice, compliance, triagem). 2. **Plataformas de desenvolvimento assistidas por IA**, porque o déficit de programadores no Brasil não vai sumir, e criar software via prompt é a única saída para escalar. 3. **Governança de IA**, não por bondade, mas porque o regulador e o cliente vão exigir explicação quando o algoritmo negar crédito ou aumentar o preço do seguro.
O que fica em **banho-maria** (ou restrito a nichos): 1. **Hardware de supercomputação próprio**: vamos consumir como serviço. 2. **Computação neuromórfica e robótica avançada**: continuam em laboratórios e P&D de indústrias muito específicas.
Para 2026, a tecnologia de ponta está disponível. O diferencial competitivo no Brasil não será quem compra a IA mais potente, mas quem consegue plugar essa IA no sistema legado dos anos 90 e fazer ela gerar nota fiscal sem erro.
Fontes
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