Google AP2: o protocolo que disputa o controle do “checkout invisível” da IA

Por Patricia Gomes
Google AP2: o protocolo que disputa o controle do “checkout invisível” da IA

Metade dos brasileiros já usa Inteligência Artificial para decidir o que comprar, mas na hora de passar o cartão, a mágica acaba. O usuário precisa sair do chat, abrir um app, logar e digitar dados. O...

Metade dos brasileiros já usa Inteligência Artificial para decidir o que comprar, mas na hora de passar o cartão, a mágica acaba. O usuário precisa sair do chat, abrir um app, logar e digitar dados. O Google decidiu atacar esse gargalo com o AP2, um protocolo aberto apoiado por pesos-pesados como Mastercard, American Express e PayPal.

Escritório moderno com computador portátil, smartphone e documento digital em um ambiente calmo.
Explore como o Google AP2 está moldando o futuro do checkout invisível na era da IA.

A meta é ambiciosa: criar uma gramática universal para que a própria IA feche a compra, negocie o preço e autorize o pagamento. Para varejistas e marketplaces, isso inaugura uma disputa silenciosa e brutal pelo controle do “checkout invisível”.

Do conselho ao clique: a briga pela infraestrutura

Pedir para o assistente escolher um produto virou rotina. O Relatório do Varejo 2025 da Adyen mostra que 52% dos brasileiros já usaram ChatGPT ou similares para auxiliar compras no último ano. A curva é ascendente em todas as gerações: entre os Baby Boomers, o uso saltou 135%.

A Kantar reforça o cenário: 46% dos brasileiros dizem usar assistentes de IA diariamente. O problema é que, hoje, a IA para na porta da loja. O consumidor delega a escolha, mas não consegue delegar a burocracia do pagamento.

Essa fricção penaliza compras recorrentes. Repor itens de supermercado ou reservar passagens em datas conhecidas deveria ser automático. Sem um padrão, cada marketplace improvisa sua integração, criando um pesadelo de segurança e fragmentação de dados. O AP2 tenta ocupar esse vácuo antes que cada grande player crie seu próprio "cercadinho".

A arquitetura da confiança: como a IA gasta seu dinheiro

O grande medo de liberar o cartão de crédito para um robô é a "alucinação": a IA comprar 50 passagens aéreas em vez de duas. O AP2 resolve isso trocando a linguagem natural (propensa a erros) por "mandatos" — contratos criptográficos rígidos e imutáveis.

Mandato de intenção: as regras do jogo

Em vez de uma conversa solta, o protocolo cria um documento digital onde o usuário define limites claros. Imagine um fã de música instruindo seu agente: "Compre dois ingressos para o show X, pista, até R$ 400 cada, assim que abrir a venda".

Esse mandato é assinado digitalmente. Se o ingresso custar R$ 401, a transação trava. O documento pode ser criado em tempo real ou deixado "armado" para quando o usuário estiver offline, funcionando como uma procuração com validade e orçamento limitados.

Mandato de carrinho: a proposta auditável

Do outro lado, o agente do marketplace não responde apenas com texto. Ele gera um "mandato de carrinho", detalhando produtos, taxas e descontos. O protocolo verifica automaticamente se esse carrinho respeita as regras do mandato de intenção. Se houver desvio — o preço subiu ou a marca do tênis é diferente da solicitada —, o processo para.

Para o varejista, isso serve como prova: "O cliente autorizou X, entregamos X".

Mandato de pagamento: o sinal verde financeiro

Quando os dois primeiros passos batem, gera-se o mandato de pagamento. É esse arquivo que viaja para bancos e processadoras como o PayPal. Ele carrega toda a genealogia da compra: a intenção original, o carrinho aceito e a autorização final.

Essa cadeia cria uma trilha de auditoria à prova de disputas do tipo "foi a IA, não fui eu". Como resumiu um gerente de risco de um marketplace brasileiro: "Sem trilha de mandato, discutir fraude com IA vira jogo de versões. Com o protocolo, viramos leitores de documentos assinados".

A pilha técnica: agentes conversando com agentes

O AP2 não trabalha sozinho. Ele faz parte de um ecossistema que o Google Cloud está montando para o setor corporativo.

O primeiro degrau é o **A2A (Agent2Agent)**. Pense nele como a "conversa de bar" entre os robôs. Ele permite que o agente do consumidor (ex: no celular Android) troque informações com o agente do Magazine Luiza ou do Mercado Livre para verificar estoque e preço.

O **AP2** entra depois. Ele é o "cartório". É a camada que formaliza o que foi discutido no A2A, transformando o papo em transação financeira válida. Essa estrutura permite que, no futuro, agentes negociem pacotes complexos — voo + hotel + transfer — com múltiplos fornecedores simultaneamente, fechando tudo em uma única aprovação do usuário.

O pesadelo do marketplace: virar "back-end mudo"

Se a arquitetura muda, o poder muda de mãos. Hoje, o marketplace controla a vitrine (o app) e o checkout (onde empurra seguros e crédito). Num mundo agêntico, a "vitrine" passa a ser o assistente de IA do Google, da OpenAI ou da Apple.

A invisibilidade da marca

Um agente de IA eficiente não vai mostrar dez abas de navegador para o usuário. Ele vai cotar em cinco lugares e trazer a melhor oferta que se encaixa no mandato. O marketplace deixa de brigar pela atenção visual do usuário e passa a brigar pela "atenção algorítmica" do agente.

A métrica de sucesso deixa de ser *pageviews* e passa a ser "taxa de aceitação de mandatos". Se o seu agente demorar para responder ou seu preço dinâmico estiver fora do balizamento, você perde a venda sem nem saber que o cliente existiu.

Quem lucra com o checkout?

O checkout tradicional é uma máquina de fazer dinheiro com produtos financeiros. Com o AP2, agentes financeiros inteligentes — como o PayPal Agent — podem entrar na conversa antes do fechamento. O agente pode sugerir: "Se você parcelar em 12x neste outro cartão, ganha mais milhas".

Isso acontece na interface da IA, não na tela do varejista. O risco para o marketplace é perder a margem de serviços financeiros (seguros, crédito, garantia estendida) se não estiver integrado ao protocolo para oferecer esses produtos diretamente ao agente do usuário.

Guerra de padrões: Google AP2 vs. OpenAI

O Google aposta no mundo corporativo. O AP2 nasce integrado a bancos, bandeiras de cartão e grandes varejistas que usam Google Cloud. É robusto, auditável e focado em tickets altos e complexos.

Do outro lado, a OpenAI joga com a capilaridade. Seu **Agentic Commerce Protocol (ACP)**, lançado em parceria com a Stripe, foca na cauda longa. A ideia é permitir que qualquer pequena loja Shopify aceite pedidos vindos do ChatGPT com fricção zero.

Para um grande varejista brasileiro, o cenário provável é a fragmentação: ter que suportar o padrão do Google para clientes Android/Gmail e o padrão da OpenAI para usuários do ChatGPT. Isso aumenta a complexidade de engenharia e risco.

O fator Brasil: PIX e LGPD

No Brasil, o "agente pagador" enfrenta barreiras extras.

A primeira é o **PIX**. O protocolo AP2 é agnóstico a pagamentos, mas a integração com o arranjo de Pagamentos Instantâneos exigirá que os mandatos conversem com as regras de Iniciação de Pagamento (ITP) do Open Finance.

A segunda é jurídica. Se a IA fizer uma compra errada, de quem é a culpa? Do banco, do marketplace, do Google ou do usuário? O Banco Central e a Senacon ainda não têm jurisprudência clara sobre "delegação de consumo para bots".

Além disso, a **LGPD** impõe limites. Mandatos de intenção ("quero comprar remédio para tal doença todo mês") são dados sensíveis. Varejistas que armazenarem esses mandatos precisarão de governança rigorosa para não transformar conveniência em vazamento de dados.

O veredito

Não é ficção científica, é briga de infraestrutura. Para os marketplaces, ignorar o AP2 e similares é arriscado. O perigo não é a tecnologia falhar, mas funcionar bem demais nas mãos de terceiros, transformando grandes varejistas em meros estoques acessados por API, sem dono do cliente e sem a margem do checkout.

Fontes

Google lança novo protocolo AP2 para compras ...

Google quer que sua IA faça compras por você e lança ...

Introducing an agentic commerce solution for merchants ...

Agentic commerce: OpenAI's Instant Checkout and other ...

Transformando o varejo com Inteligência Artificial: da eficiência operacional à lógica dos agentes - Central do Varejo