O fim da festa do PowerPoint: como QI Tech, Tractian e Asaas viraram o manual de sobrevivência em 2025
Acabou a era do crescimento a qualquer custo. Se 2021 foi o ano da euforia e 2023 o da ressaca, 2025 consolidou-se como o ano da disciplina. Em um cenário onde o capital de risco ficou 36% mais escass...
Acabou a era do crescimento a qualquer custo. Se 2021 foi o ano da euforia e 2023 o da ressaca, 2025 consolidou-se como o ano da disciplina. Em um cenário onde o capital de risco ficou 36% mais escasso em volume de operações – segundo dados da TTR Data –, apenas quem trocou promessas vagas por unit economics sólidos conseguiu passar pelo filtro.

Três empresas brasileiras navegaram essa "seca" com precisão cirúrgica: QI Tech, Tractian e Asaas. Elas não operam nos setores mais glamourosos do Instagram, mas resolveram dores reais de crédito, chão de fábrica e gestão financeira. O resultado? Rodadas que somam bilhões de reais e a prova de que, na hora do aperto, o dinheiro inteligente corre para quem resolve problemas chatos.
O novo filtro: cheques maiores para poucos escolhidos
O dinheiro não sumiu do mapa; ele ficou elitista. Enquanto o número de rodadas despencou, o volume financeiro se manteve estável na casa dos R$ 17,5 bilhões. A tradução disso é brutal para quem está começando: o cheque "semente" secou, mas o cheque de "crescimento" (Growth) ficou gordo para quem provou que o negócio para em pé.
Os maiores aportes de 2024 foram concentrados. A fintech catarinense Asaas levantou cerca de R$ 820 milhões. A industrial tech Tractian garantiu R$ 700 milhões. O JusBrasil trouxe mais R$ 500 milhões. Não são apostas; são validações de teses que já geram caixa.
O Brasil na mesa dos adultos
Nesse xadrez global, o Brasil continua sendo o peso-pesado da América Latina. O relatório *Corrida dos Unicórnios*, do Distrito, identificou que, das 12 startups latinas mais próximas do valuation de US$ 1 bilhão, nove são brasileiras. A QI Tech já cruzou essa linha. Tractian e Asaas estão na porta de entrada, carregando o estandarte de que é possível construir gigantes fora do eixo óbvio do consumidor final (B2C).
QI Tech: O lucro mora nos bastidores
A QI Tech entendeu cedo uma regra de ouro do mercado financeiro: na corrida do ouro, ganha mais quem vende a picareta. Enquanto bancos digitais brigavam a tapa pelo cliente pessoa física – queimando caixa com marketing e aquisição –, a QI Tech decidiu ser a infraestrutura invisível por trás deles.
Ao operar como *Banking as a Service* (BaaS) e infraestrutura de crédito, a empresa permite que qualquer varejista, fundo ou fintech vire um banco. Em 2024, essa estratégia de "motor silencioso" rendeu uma Série B de US$ 250 milhões e o status de unicórnio.
A estratégia de não aparecer
A grande sacada foi evitar a vitrine. Ao focar no B2B, a QI Tech escapou da guerra de preços das maquininhas e das contas digitais. O modelo é robusto porque o Brasil é complexo: navegar pelas normas do Banco Central e da CVM é um pesadelo para quem está começando. A QI Tech vende justamente a solução desse pesadelo: tecnologia embarcada com compliance regulatório.
A aquisição da corretora Singulare foi o xeque-mate dessa tese. Não foi uma compra por vaidade, mas por distribuição. Com ela, a fintech acessou mais de 1.000 fundos e R$ 121 bilhões em ativos sob custódia, transformando-se num hub onde o crédito não só é processado, mas também estruturado e distribuído.
Tractian: Quando a graxa encontra o algoritmo
Se existe um lugar avesso a "buzzwords" de tecnologia, é o chão de fábrica. Um gerente de manutenção industrial não quer saber de Inteligência Artificial generativa; ele quer saber se o motor da esteira 4 vai quebrar na madrugada de sábado. A Tractian virou um fenômeno global ao traduzir a manutenção preditiva – um conceito antigo – em um produto de software fácil de usar (e de pagar).
Com sensores IoT proprietários que "ouvem" a vibração das máquinas, a startup antecipa falhas antes que elas parem a produção. É o tipo de ROI (Retorno sobre Investimento) que não exige fé: uma hora de linha parada custa milhões; o software custa uma fração disso. A conta fecha rápido.
Hardware é difícil, mas cria fossos
Fazer hardware é notoriamente difícil para startups. Exige estoque, logística e instalação física. Mas a Tractian transformou essa barreira de entrada em sua maior defesa. Uma vez que o sensor está colado na máquina do cliente, o custo de troca (switching cost) é altíssimo.
Em 2024, a empresa levantou R$ 700 milhões com fundos globais como General Catalyst e Sapphire Ventures. O motivo? Eles não viram apenas uma empresa de sensores brasileiros, mas uma plataforma de *Industrial Tech* capaz de competir nos Estados Unidos, onde o parque fabril é gigantesco e a mão de obra de manutenção é cada vez mais escassa.
Asaas: A vingança da "pequena" Joinville
Enquanto a Faria Lima olhava para cartões de crédito corporativos e criptoativos, o Asaas, de Joinville (SC), olhava para o boleto da padaria. A fintech construiu um império focando na dor mais mundana do pequeno empreendedor: cobrar e receber.
O que começou como uma ferramenta de automação de boletos evoluiu para um sistema operacional financeiro completo para PMEs. Em 2025, o Asaas prova que não é preciso estar em São Paulo para atrair capital global. A rodada de R$ 820 milhões foi uma das maiores do ano, validando a tese de que resolver a vida financeira do "Brasil real" é extremamente lucrativo.
Disciplina catarinense
O crescimento do Asaas reflete uma cultura empresarial comum no Sul do país: aversão ao desperdício. A empresa construiu sua base de clientes e seus dados de crédito passo a passo, antes de abrir a torneira de produtos mais arriscados.
Conhecendo o histórico de pagamento e a inadimplência de seus clientes PME, o Asaas consegue oferecer crédito com um risco muito menor do que um banco tradicional, que muitas vezes opera no escuro com esse perfil de público.
O que aprendemos com a safra de 2025?
Olhando para esses três casos, o "segredo" do sucesso parece decepcionantemente simples, mas difícil de executar. Esqueça os super apps que fazem tudo para todos. O dinheiro de 2025 fluiu para quem focou em três pilares pouco sexys.
1. Problemas chatos e gigantescos
Crédito estruturado, vibração de motor industrial e gestão de boletos. Nenhum desses temas viraliza no TikTok. Mas todos movimentam trilhões. O mercado endereçável (TAM) dessas empresas não depende de criar uma nova necessidade no consumidor; a necessidade já existe, só é mal atendida.
2. A "barreira da chatice" como vantagem
Regulação bancária (QI Tech), instalação física de sensores (Tractian) e complexidade tributária de PMEs (Asaas) funcionam como muralhas. Startups de fim de semana não conseguem copiar esses modelos porque a complexidade operacional é alta. O "fosso" não é apenas o código, é a operação no mundo real.
3. Métricas antes da narrativa
O investidor de 2025 perdeu a paciência para o *storytelling* sem planilha. Essas empresas levantaram mega-rodadas porque chegaram na mesa de negociação com métricas de retenção, margem e CAC (Custo de Aquisição de Cliente) que paravam em pé sozinhas. O capital veio para acelerar o que já funcionava, não para descobrir se o produto tinha mercado.
Para o empreendedor que olha para o futuro, a lição é clara: o próximo unicórnio brasileiro provavelmente não vai sair de uma ideia "disruptiva" de guardanapo, mas de uma planilha de Excel detalhada que resolve uma ineficiência estrutural do Brasil – seja ela em um banco, em uma fábrica ou no balcão de uma loja de bairro.
Fontes
Startups brasileiras: as principais em 2025 - TOTVS
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