Chatbots para negócios no Brasil: como a automação está transformando o mercado na América Latina
Em 2020, o Banco Bmg se viu diante de um problema que todo executivo de operações teme: precisava ativar 180 mil novos cartões de varejo, mas não tinha braço humano suficiente no call center para aten...
Em 2020, o Banco Bmg se viu diante de um problema que todo executivo de operações teme: precisava ativar 180 mil novos cartões de varejo, mas não tinha braço humano suficiente no call center para atender essa demanda sem explodir os custos ou criar filas intermináveis. O risco era duplo. Se o atendimento demorasse, o cliente desistia do cartão. Se fosse rápido demais mas inseguro, a fraude disparava.

A solução não veio de uma nova sede de telemarketing, mas do WhatsApp. Ao implementar um agente de inteligência artificial capaz de guiar o cliente desde o "oi" até a primeira compra, o banco transformou o que costuma ser uma dor de cabeça burocrática em uma conversa de minutos.
Este caso ilustra uma mudança de maturidade no mercado brasileiro. Esqueça aquele chatbot que só sabe responder "não entendi". A nova geração de automação na América Latina deixou de ser um "filtro para impedir o cliente de falar com um humano" e virou, ironicamente, a forma mais humanizada de escalar negócios em um país viciado em mensagens de texto.
O fim da "música de espera"
Para entender a urgência da mudança, basta olhar para o comportamento do consumidor. Ninguém mais tem paciência para a URA telefônica ("disque 1 para perdas, disque 2 para danos"). Dados da Zendesk são impiedosos: 96% dos clientes abandonam uma marca após uma experiência ruim de atendimento. Mais grave ainda: 60% simplesmente param de comprar.
No cenário do Bmg, o desafio era fazer o *onboarding* (a entrada) de clientes de cartões emitidos em parceria com varejistas. O público-alvo, muitas vezes de menor renda, já usa o WhatsApp como se fosse a internet inteira — é onde falam com a família, compram gás e negociam dívidas. Forçar esse cliente a baixar um aplicativo pesado ou ligar para um 0800 seria criar atrito desnecessário.
A "agência" que cabe no bolso
A decisão de usar a plataforma da O2OBOTS para levar esse processo para o WhatsApp derrubou barreiras de entrada. Não há login, não há senha complexa para decorar, não há download. A "agência" já está instalada no celular de 120 milhões de brasileiros.
Mas havia uma armadilha: como garantir segurança bancária em um aplicativo de chat? A resposta foi desenhar uma conversa que flui como bate-papo, mas opera como formulário de compliance. O bot valida identidade, confirma dados sensíveis e registra o consentimento do usuário conforme a LGPD, tudo em linguagem natural, sem "juridiquês".
Inteligência vs. Menu de Opções
O erro clássico das empresas é tratar o WhatsApp como uma URA visual — aquele menu rígido de botões que irrita qualquer um. O Bmg optou por um agente de IA conversacional. A diferença é sutil, mas vital: o sistema entende variações de resposta e retoma o contexto.
Isso se alinha a uma tendência de mercado. Uma análise da IBM sobre automação aponta que o sucesso não está em substituir humanos, mas em criar uma colaboração. A máquina resolve o repetitivo (90% dos casos); o humano entra apenas na exceção qualificada.
Por dentro da operação: como o bot virou gerente
A jornada criada para o cartão de varejo do Bmg mostra como a automação funciona na prática, longe da teoria.
Ativação e educação em tempo real
Assim que recebe o cartão plástico, o cliente recebe uma mensagem. O bot não apenas desbloqueia o plástico. Ele aproveita a atenção do usuário para explicar limites, datas de vencimento e melhores dias de compra. É o momento de maior atenção do consumidor. Em vez de ler um folheto que vai para o lixo, ele recebe a informação em pílulas digeríveis na tela.
O "Dossiê" para o humano
Talvez o ponto mais crítico seja o *handoff* — o momento em que o robô passa a bola para o humano. Se o cliente digita palavras que denotam frustração, suspeita de fraude ou problemas complexos, o sistema não insiste. Ele transfere para um atendente.
Mas a mágica acontece na transferência: o atendente humano já recebe a conversa com o histórico completo, dados validados e o motivo do contato. Acaba a repetição irritante de "por favor, repita seu CPF". Segundo a IBM, essa triagem inteligente é o que define as centrais de atendimento modernas.
Lições de quem já errou (e acertou) no Brasil
O mercado brasileiro está cheio de chatbots "zumbis" — aqueles que existem, mas ninguém usa ou gosta. O que separa casos como o do Bmg, Casas Bahia e Nextel do restante?
1. O "Bot do Baianinho" e a venda direta
A Casas Bahia entendeu que o bot não serve só para reclamação. Ele serve para vender. Durante a Black Friday, o assistente virtual da marca (o Baianinho) disparou ofertas personalizadas e permitiu que clientes escolhessem categorias de interesse. O resultado impressiona pelo volume: em apenas quatro dias, mais de 51 mil pessoas engajaram em conversas, trocando quase 2 milhões de mensagens. Aqui, a automação virou motor de receita, não centro de custo.
2. Nextel e a regra do 80/20
Na telefonia, setor campeão de reclamações, a Nextel usou o WhatsApp para estancar a sangria do call center. A lógica foi o Princípio de Pareto: 80% das dúvidas são simples (segunda via, saldo, configuração). Ao colocar um bot para filtrar isso, a empresa viu um aumento de 25% no volume total de atendimentos em dois meses, com 85% deles resolvidos sem intervenção humana. O cliente teve a resposta rápida que queria, e a empresa não precisou dobrar a equipe de atendimento.
3. A porta de saída tem que estar visível
Pesquisas da Hibou mostram que 39% dos brasileiros ainda preferem atendimento humano e evitam automação. E 92% sabem exatamente quando estão falando com um robô. A lição aqui é transparência. O bot que finge ser gente gera desconfiança. O bot que se apresenta como assistente virtual e oferece um botão claro de "falar com atendente" ganha a confiança do usuário. É o paradoxo da automação: para que o cliente use o robô, ele precisa saber que pode dispensá-lo a qualquer momento.
O lado sombrio: a América Latina como laboratório
Nem tudo é eficiência. A América Latina se tornou um campo de testes massivo para o uso de IA — tanto para o bem quanto para o mal. O Brasil lidera o ranking de interações de bots na região, com 408 milhões de registros recentes, seguido por México e Colômbia.
O problema é que a mesma tecnologia usada para atender o cliente é usada para fraudá-lo. Cibercriminosos empregam bots de IA para testar milhares de cartões roubados em segundos ou simular comportamento humano em sites de e-commerce.
Para executivos, isso significa que "colocar um bot no ar" exige uma camada de segurança robusta. Não basta conectar a API do WhatsApp. É preciso garantir que o sistema de *onboarding* — como o do Bmg — tenha travas de segurança suficientes para distinguir um cliente real de um script malicioso tentando validar dados vazados.
O veredito: utilidade vence a novidade
A fase de deslumbramento com a inteligência artificial passou. Hoje, o consumidor brasileiro não quer bater papo com a marca por diversão; ele quer resolver o problema da fatura ou desbloquear o cartão antes de chegar ao caixa do supermercado.
O sucesso de casos no setor financeiro e varejista mostra que o segredo não está na tecnologia mais complexa, mas na aplicação mais óbvia: estar onde o cliente está. Se o brasileiro vive no WhatsApp, é lá que o negócio precisa acontecer — com a rapidez de um robô e, quando necessário, a empatia de um humano.
Fontes
Casos de Sucesso com Chatbots em Empresas Brasileiras
Conheça 10 empresas que usam chatbots para negócios - Blip
7 exemplos de empresas que usam o chatbot em seu dia a dia